Como compor : estratégias usando conceitos de forma e estrutura musicais

Publicado por Denise Ogata em

Como compor uma música : estratégias usando conceitos da forma e estrutura musicais

Neste artigo vamos falar qual a relação da forma musical e as partes da música na hora de compor.

Imaginar um som, uma canção, uma música completa na cabeça e depois ou talvez durante a composição, perceber que ao ouvir não corresponde bem ao o que foi imaginado …ou o que soa está bem longe…já passou por isso? 

Uma das alternativas é planejar sua composição. Embora isso possa parecer um pouco restritivo para quem está criando, por outro lado, pode ser a chave para resolver muitas situações. 

Estas estratégias servem também para quem está fazendo um arranjo, já que vamos abordar elementos musicais e partes da música, ou seja, aspectos que justamente se referem ao arranjo e podem ser modificados, sem alterar a melodia principal. 

Assim, este artigo traz uma abordagem sobre usar os conceitos de forma e estrutura para ajudar neste processo, principalmente no início da composição.

Importante destacar que não é um conceito ligado somente à música erudita e que pode ser utilizado para qualquer gênero musical. 

Forma x Estrutura

Para começar, vamos esclarecer alguns conceitos. 

A forma corresponde a um formato determinado, uma configuração específica, com suas características e divisões, como a forma Sonata, forma Choro. 

Quando falamos em estrutura estamos tratando das partes da música, a maneira em que estão organizados os conteúdos, que podem então fazer parte de alguma forma determinada ou não. 

Exemplos : compondo em forma binária

Forma muito usada no século XVII e XVIII em que há 2 seções distintas,  seção A e B (que geralmente repetem, ou seja, contém a barra de repetição ao final de cada uma). 

Falando em estratégia, aqui é onde você já poderá definir como será cada seção e o que as diferem. Veja o exemplo do Minueto n.15 de Bach, em que os contrastes ficam por conta do tamanho e da tonalidade : 

DICA : Veja o infográfico no blog, com um resumo sobre esta forma! (no menu lateral ) 

Trabalhando com várias seções

Obviamente podemos ter uma música com mais de 2 seções. Não existe regra, mas em termos de composição e da estratégia que estamos buscando, é preciso pensar o que irá diferenciar uma seção da outra. Muitas vezes pode ser a mesma melodia, mas com uma pequena variação, como veremos mais adiante ou com uma tonalidade diferente.

O exemplo da música de Michael Jackson (“Heal the world”) com seção A, B e C (sendo que considerei o refrão como a seção B)  traz o refrão repetindo no final, porém com modulações. Por isso, nomeei B’ e B” , para diferenciar o mesmo refrão só que com a variação de tonalidade. Então, não temos uma seção nova, temos uma modificação do mesmo material. Ouça a modulação no trecho final a partir do refrão (seção B): 

Sobre os temas e suas variações

Muitas músicas contém um tema principal que passa por variações e assim chegamos a uma música inteira, somente sobre um único tema. 

Na obra-prima “Bolero de Ravel” temos 1 tema, com duas ideias melódicas que passa por 18 variações, ou melhor, 18 diferentes orquestrações. 

 

Já na La Valse d’Amélie (Y.Tiersen) o mesmo tema sofre pequenas variações e o que traz as mudanças é o acompanhamento. Na versão para piano, podemos conferir como são utilizadas diferentes configurações para seguir com a melodia. Aqui fica evidente como as diferentes configurações de arranjo resultam em um diferentes sonoridades. 

Rapsódias

Neste tipo de composição, de caráter mais livre, onde não há uma estrutura definida, os contrastes ocorrem por tonalidade, ritmo, intensidade, diferentes temas dentro dos chamados episódios.

Exemplos : para piano “Rapsódias Húngaras” de Liszt; para orquestra e piano “Rhapsody in blue” de George Gershwin e no rock Bohemian Rhapsody” (F.Mercury).

Compondo sem tema

O autor Stefan Kostka, no seu livro “Materials and Techniques of Twentieth-Century Music” trouxe à tona o fato de como a forma musical e os contrastes utilizados foram se modificando ao longo da história da música.

Isto significa que outros parâmetros foram “guiando” as composições, ou seja, não mais temas ou tonalidades contrastantes, por exemplo, determinariam as diferentes seções .

O exemplo da peça de Béla Bartók , n.46 Mikrokosmos vol.2 “Increasing-Diminishing” revela o uso da dinâmica, intervalos e figuras musicais em modo progressivo (aumentando e diminuindo), como o principal material da composição.

Clique para acessar uma análise rápida em que mostro o início desta peça e estas mudanças tocando ao piano :

Partes da música

Vamos fazer uma divisão em 3 momentos da música: introdução (é a apresentação e poderá estimular a expectativa do ouvinte), ideia principal (que traz as diversas partes da música) e a finalização (que é a conclusão e poderá deixar um impacto final no ouvinte). Entre elas podem haver transições ou não (como seções pequenas, ou frases, ou prolongamentos etc).

Assim, temos uma estrutura com objetivos para o início e o fim . E as partes da música como seções, refrão, repetições, seguem de acordo com o que foi determinado antes, isto é, se será em forma binária, ou usará temas, ou episódios etc.

Além disso, temos que levar em conta um fator muito importante : a intenção. Qual a sua intenção para determinada parte da música ? Qual elemento você quer que se destaque ?

Perguntas e, principalmente as respostas trarão o caminho a seguir e as ideias para desenvolver a composição dentro do que foi primeiro imaginado.

Conclusão

Na hora de compor, ao adotar uma forma musical para seguirmos teremos um roteiro sobre quantas seções elaborar, como na forma binária (2 seções).

Entretanto, seja qual for a forma escolhida (ou sem forma, apenas a estrutura da música delineada) é preciso diferenciar as partes através de elementos contrastantes.

Planejar o que será usado, qual tema, se terá ou não tema, as variações, quantas repetições, quais mudanças…enfim, definir antes o que será usado poderá ajudar a alcançar um bom resultado.

Além disso, aliar a intenção para cada parte da música é de grande peso no processo da criação, pois direciona os elementos que queremos destacar e aumenta a probabilidade de termos ao final o som que foi primeiramente imaginado na mente.

Existem outras formas musicais e maneiras de organizarmos uma composição. Nesta área da criação, costumo dizer que tudo (ou quase tudo) é possível…então, a partir disso, convido você a explorar e testar nas suas próprias músicas estes conceitos e, cada vez mais, alcançar os seus objetivos !

Gostou ? Compartilhe, comente!

Até a próxima!

Categorias: Composição

0 comentário

Deixe um comentário

Avatar placeholder

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Social media & sharing icons powered by UltimatelySocial